sábado, 26 de abril de 2008

A Garota que Vive no Céu de Diamantes

Era uma vez uma menina. Era uma vez à uma da manhã. Era uma vez uma menina à uma da manhã, em casa, tomando banho e pensando na vida, pensando se queria ou não continuar, pensando no que fazer e uma vozinha gritando cantarolando na sua cabeça qu'est-ce que je fais, je sais pas quoi fais. E então resolveu que já que estava ali e o carro estava fácil, o melhor a fazer era mesmo dar o fora, saír de casa, fugir daquela noite que se transformaria fatalmente numa ressaca cabulosa na manhã seguinte. Fugir da solidão tão óbvia, fugir daquela metade da garrafa de vodka barata escondida no armário do banheiro. E então a menina saiu, pesou o carro e foi. E do caminho falou com um amigo, e passou no bar e encontrou mais amigos, e foi para o lugar bonito e lá tomou cerveja, e tomou cerveja, e tomou vodka com gelo e tomou mais cerveja. E encontrou um amigo das camisas e gravatas de bolinhas. E depois fugiu de caras que afinal não eram diretos mas que também indiretos não eram, e lá dançou quase nada, e ouviu, e acabou que esqueceu da vida, e viveu. Conheceu o moço que vive de literatura e quase se apaixonou (pelo menos pela idéia, não se pode negar). E fugiu do outro que dormiu com a cerveja na mão (mas que quando ela foi tentar tirar, pra ele não derrubar, acabou acordando - do tipo acordo mas não perco a garrafa, e derrubá-la, jamais).
E conheceu o moço do cabelo estranho, mas da camisa bonita. E eles conversaram no balcão e ele se assustou com a vodka pura dela, e ela mockingbird, e ele bom moço, até que a beijou e ela estava só esperando e disse isso pra ele, que ele demorou e ele riu e disse que era tímido, ela respondeu com uma risada. E eles foram para a casa da menina ali perto, ali no centro, e no caminho ele achou que ela tinha frio e colocou seu casaco sobre os ombros dela, e lá eles sentaram no sofá e começaram a beber mais e se trancaram no banheiro e treparam e ela não só gostou da trepada como achou divertidíssimo trepar com um semi-desconhecido no banheiro da casa de uma desconhecida, e eles voltaram para a rua e ele chamava ela de amor todo o caminho desde a ida até a volta, e ela achou bonitinho mas estranho mas afinal deve ser uma coisa de gente do sul do país, sei lá, ele não é daqui, deve ser isso. E se despediram e o amigo dele que até ali parecia ok deu uma de mané e ela acabou tendo que da carona para a mocinha bêbada e sonada que ele pegou, mas foi tudo bem porque estava tão ensolarado e ela estava de bom humor (por causa do sexo, provavelmente) e surpreendentemente não se perdeu na volta.
E estava tão de bom humor quando estava voltando pra casa que pensou nos outros mocinhos mas sem muito esforço, deu uma volta no quarteirão, e depois passou na padaria e comprou pãezinhos. E bateu na árvore do estacionamento da padaria e disse ops acho que bati na sua árvore (sendo o 'acho' um discreto eufemismo, depois daquele >plec< que fez a batida), mas ninguém reclamou e ela se sentiu feliz e satisfeita por estar bêbada e voltou para casa e para a realidade e concluiu que gostava de viver e que realmente valeu bem mais a pena saír do que dormir no chão do banheiro abraçada com a garrafa de vodka barata. E de quebra conheceu uma bandinha nova, porque todo mundo tem uma banda e é muito muito difícil não pegar um guitarrista (músico em geral, mas guitarrista é mais difícil ainda). E agora ela voltou a sonhar e continua bêbada e feliz e está cansada e vai deixar pra descansar depois porque agora a vida é boa e não vale a pena desligar. E viveram felizes para sempre.

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